terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Regina – A escritora recatada (Da série: Tudo que aprendi em banheiros públicos)

Dizem que os problemas de Regina começaram pouco antes dela reencarnar. Deus teria perguntado: “Peitos grandes ou inteligência média, Regina?”, ao que ela teria respondido em puro êxtase: “Inteligência média!!!! Inteligência média!!!”

Então lá estava Regininha caminhando em direção ao banheiro do Mercado da Madalena, seu lugar preferido depois do Cinema da Fundação e do 13º andar do CFCH. Os trajes folgados e fechados, que evitavam o que seria um decote inútil pela falta mesma daquela protuberância tão desejada por ambos os sexos, era agravado pela expressão soturna de sua face, conferindo ao quadro uma seriedade que chegava a contrastar com o ambiente.

Mas engana-se quem, a conhecer pela indumentária, imagina Regina como uma casta beata. Pois nada há de religioso em seu decoro. Este é antes fruto de uma superstição intelectual muito antiga, da época em que ciência, filosofia e misticismo ainda se confundiam como porra e corrimento num lençol de motel. Em resumo, trata-se de uma daquelas mulheres que se arrogam o mérito de ter descoberto o “jeito certo” de falar sobre sexo.

“Erótica” era como chamava sua literatura romântica, melosa e estereotipadamente feminina. Tal termo não passava de uma máscara moral que cumpria a função de distanciá-la da pornografia, um tema ainda proibido e com acesso regulamentado tanto pelas igrejas quanto pela “elite intelectual” do país. “Pecado” para os que crêem, “falácia de autoridade” para os que não crêem.

─ Podre!!! – Cochichou Regina após um comentário repleto de “cus” e “bucetas” da mesa ao lado, deixando clara sua posição quanto ao desprendimento moral alheio.

Para os amigos, uma ousada que, não obstante, sabia “se dar o valor”, seja lá o que isso quiser dizer. Pobre não era, mas adorava se esbaldar nos focos de cerveja barata e banheiros sujos. Para Regina, a faculdade do julgamento era sua qualidade mais importante. E nesse sentido gostava de entender a si mesma como uma pessoa extremamente dura, porém bastante franca. Uma postura oposta a das sonsas, mas igualmente refutável. Pois não sabia ela que sinceridade convertida em veneno não passa de um pretexto para ser desagradável. Prática bastante difundida mesmo entre as classes menos abastadas que não tiveram acesso a um guia de falácias lógicas.

É ainda nessa faculdade de julgar extremamente peculiar que encontramos a diferença fundamental entre o intelectual e o intelectualóide. Pois o intelectualóide não passa de um mal humorado, não é mesmo? Um camaleão, como todos nós. Porém excessivamente preocupado com seu passado, sendo o registro oral de suas opiniões anteriores o fantasma mais assustador. Quando vem à tona, é capaz de desencadear crises de pânico, sobretudo se seguido de contra-argumentação. “Remédio pra essa galera!” “Drogas lícitas pra esse povo!” – Diriam os adeptos do “pão e circo”, a fim de solucionar o problema do excesso de moral no Recife.

Mas nem só de recato e intelectualoidismo se compõe a personalidade de Regina. Pois Regina também ama, Regina também quer ser amada. Na idealização de um homem que a satisfizesse para além de suas expectativas sexuais, Regina criou sua própria fantasia: “O mito do doutorando em Antropologia”. Mais velho que você, de extrema erudição, mas com testosterona suficiente para não soar civilizado. Algo como um verdadeiro lord, porém com a configuração de um homem das cavernas. Alguém que soubesse o plural de palavras difíceis como “gravidez” e cujo referencial de mulher burra estivesse muito além de Carla Peres. Na verdade Regina desejava muito mais num homem, mas temia que a multiplicação de características improváveis num mesmo indivíduo transformasse sua vida num filme de magia com Sandra Bullock, o que constituiria um fracasso duplo, visto que também odiava representantes do que considerava “cinema fraco”.

O banheiro, porém, era seu reduto mais sincero. Onde todo o nojo podia transparecer, sem nenhum risinho de falsidade moral. Sua desenvoltura com aquele espaço frio e sujo foi até a porta da cabine, que fechou com a ponta dos dedos, temendo a mais subjetiva das contaminações. Desabotoou a calça e desceu junto com a calcinha, receosa de que qualquer milímetro das peças encostasse no vaso. Regina viveu cada segundo de sua urina.

A experiência negativa foi agravada pela subliteratura que estampava a porta da cabine. Regina selecionou, entre os poemas, aquele que lhe pareceu mais vulgar e desprovido do que ela entendia por “substância literária”. Tirou uma caneta do bolso, circulou o poema e pôs-se a escrever uma rebuscada crítica de 57 caracteres sem espaço. Enquanto escrevia, Regina não se permitiu reprimir um sentimento de superioridade. Mas algo apertava seu peito e sua garganta. Algo que custou a decifrar. Era o “algo em comum”. O que havia na interseção dela com todas aquelas imundas desprovidas de intelecto que criticava. O que as aproximava era a caneta e a disposição. E vejam só, meus queridos interessados, se não é Regina agora a mesma de tantas!?

No dia seguinte, tava lá uma resposta para o seu posicionamento: “tomá nu cú otaria da buseta arombada”.

Agora sim ela estava integrada...

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Novos polígamos e os agravantes românticos da obsolescência psicológica

“Vai tomar no cu.”
(Karl Marx)


─ É que eu gosto das duas! – Me disseram num clichê de novela do SBT.

Pensei imediatamente: “Quem escreveu essa merda de diálogo só pode já ser rico”.

Eu revidei:

─ Então, já que se trata de um artefato áudio-visual, vamo evitar esse diálogo falacioso e cortar pra cena!

─ Que cena?

─ A cena em que eu jogo tudo que você me deu no lixo.

─ Mas no lixo??? Não, cara, deixa na frente do prédio que alguém vai e cata!! Menos os presentes caros. Ah não, me devolve os caros, os pobres não precisam de tanta sofisticação!

Novamente a questão de classe se colocava no enredo. Seria possível acabar um namoro sem citar Karl Marx? Os anos passavam e eu aprendia que a importância desse autor não estava somente para os rituais de aproximação sexual.

─ Mas que espécie de obsolescência é essa??? – Proferiu em desespero – Cadê a galera da sustentabilidade que não fala nada??? Os rios, os campos, A Mãe Natureza... não merece uma Doc Martens de vinil original novinha em folha!!!

─ Interessante – falei. Emoção com os objetos alheios me parece um tema de interesse para o campo do “Design e emoção”. Aproveite a sua experiência e comece a escrever.

Mas eis que esses insights nos estudos em Design me afastam do cerne da questão, que é o mistério da poligamia e como tal prática sobrevive a custo de muitas Doc Martens jogadas no lixo. Dizem que pra poligamia é preciso maturidade. Eu acrescento à lista:

- Moderadores;
- Um guia de falácias lógicas;
- E direito de escolha.

Desse conjunto, o direito de escolha é o item que apresenta maior carência. Assim, quando você menos espera, já está fazendo parte da poligamia dos outros, sem o seu consentimento. Veja você que nunca estudou etimologia e mesmo assim pode deduzir que o “poli” de “poligamia” significa “muitos”, “um bocado”, “gente pra caralho”. Muita gente é igual a: muitas consciências, muitas necessidades, muitas opiniões... muitas escolhas. Entendo, com isso, que tal prática não pode se dar por escolha de um único. E consentimento de casal também não é suficiente tá galera? É preciso haver plena consciência e concordância dos três (e por que não dizer “dos quatro”, “dos cinco” e “por aí vai”?). Senão a gente entra naquele papo recorrente da liberdade pessoal ferir a liberdade alheia, um mistério ainda mais interessante.

Mas “poligamia” é um termo pesado demais. Que tal “ficar ficando”? É, essa coisa do “sem compromisso” é interessante demais, porque assim você pode ter compromisso com gente pra caralho ao mesmo tempo! E o que é ainda mais interessante: isentando os parceiros da consciência e principalmente da escolha.

Mas isso nunca teve importância. O que importa é o lixo, que ele insistia em chamar de memória. Sabe como é, esse poder de persuasão que as coisas materiais têm.

Mas sabe, dizem que depois do lance do lixo ele se converteu e gerou uma nova corrente aí de “feminismo sustentável”. Hoje, passa o dia inteiro espalhando mensagem de cunho militante no Facebook. “Ajude o meio ambiente evitando a canalhice”, diz uma das imagens. Só não foi mais compartilhada do que a campanha que incitava as pessoas a urinarem durante o banho.

Já eu, a quem faltava tanto a consciência de classe quanto a ambiental, fiquei lá até o caminhão passar e levar tudo. Finalmente encontrei uma forma de resumir o nosso relacionamento:

“Você foi um lixo caro que eu tive”.

domingo, 24 de julho de 2011

O Método não morreu

Katrina fez pós-graduação no inferno e contou que o orientador bam-bam-bam era um tal de Massa. Dizem que a educação afasta as pessoas das drogas e das atividades ilícitas, porém Massa foi até o pós-doutorado sem nunca ter abandonado o tráfico.

Katrina foi orientada pelo Padre B., um ex-exorcista que virou a casaca e mudou de lado. Seu único inconveniente era o dom da premonição, o que dificultava muito sua relação com o presente. “Se eu virar à esquerda, morrerei antes dos 60, se seguir em frente, serei responsável por uma morte daqui a 7 anos, voltando atrás, perco aquele prêmio que ganharei em 2027...” Em suma, um cara que entendia a complexidade das decisões simples do dia-a-dia. Desnecessário falar do conveniente que era sua capacidade de prever todos os resultados.

O restante do departamento usava a ajuda dos espíritos para encontrar as respostas, mas a burocracia era imensa, e mesmo assim dificilmente se entendia o que eles queriam dizer. Durante um mês inteiro de 2007 os espíritos deram como resultado apenas trechos de músicas dos Beatles. Os catedráticos viram naquilo uma nova tendência, de importância comparada apenas ao ready-made de Duchamp. Somente 7 meses depois descobriram que tudo não passou de uma tentativa de greve frustrada. Foi a última vez que um espírito tentou ser criativo no inferno, agora eles simplesmente param de trabalhar.

Existem coisas que só acontecem no inferno. Uma delas é o sorteio de bolsas, em bingos que acontecem no primeiro sábado do ano. Outra é que você não precisa retalhar toda a sua pesquisa pra caber no limite ridículo de 5 mil palavras se quiser que as pessoas tenham acesso à mesma. No entanto, todos os artigos são escritos em verso, incluindo as referências bibliográficas, que devem rimar.

E o Método, bem, é uma lenda, mas dizem que ele está lá em algum cômodo. Seu inferno é passar a eternidade escrevendo a frase “Nunca mais vou dizer que as ciências sociais não encontraram seu Galileu”. Mas há quem diga que já o viu na companhia de entidades positivistas, ainda na ativa, recitando A lógica da pesquisa científica para jovens demônios perdidos na vida. Seja lá como for, sua suposta morte já foi tema de inúmeras pesquisas. É que no inferno não precisa ter certeza...

domingo, 17 de abril de 2011

Mitologias do coito interrompido - Pagando de gatão

Passei rápido, não consegui ver o rosto de ninguém, só deu pra ouvir quando ela disse: “Meu apartamento tá vazio, vamo pra lá?” Ora, isso é o que eu chamo de ritual de aproximação sexual! Não tem moral ou falso moralismo que tire o caráter reconfortante de algo assim.

Outra coisa é a doida chegar pro cara e dizer: “Olha, amanhã de manhã... às 7 horas da manhã... Eu vou fazer pesquisa... No arquivo público do Cinema São Luiz... Tá a fim de ir comigo?”

Acho que numa hora dessa o cara foca apenas nas palavras chaves: “pesquisa”, “7 horas da manhã”... Impossível converter isso em sexo.

Deolinda é mesmo muito ingênua. O cara aceitou e ela mandou uma mensagem pro meu celular: “Finalmente consegui marcar um encontro com Edvaldo!!!” No dia seguinte, nova mensagem: “Cara prego!!!” Preocupada com o nível da fuleiragem, liguei imediatamente pra ela:

― Fala Deolinda, o que foi que esse idiota fez?
― Pagava de gatão o tempo todo!
― Sério? Tipo como? Dando em cima de outras doidas?
― Nada, só tinha a gente lá!
― Vocês estavam sozinhos no bar e ele ficou pagando de gatão como?
― Que bar, a gente tava no arquivo público do Cinema São Luiz, mulher! A gente se encontrou lá às 7 da manhã pra fazer pesquisa... Ele ficava fingindo interesse pelos documentos! Dá pra acreditar??? Ficava me fazendo perguntas sobre paleografia, querendo saber o que era um documento primário... Sem brincadeira, acho que ele fingiu interesse o tempo todo somente pra não ficar comigo!

Meu deus! Eu disse pra ela trocar a psicóloga por uma cartomante, que talvez os espíritos a aconselhassem melhor. Depois fiquei imaginando que tipo de cara seria esse que sai de casa às 7 horas da manhã somente pra fingir interesse por paleografia.

Engraçado mesmo foi quando Edvaldo apareceu com uma tal de Mônia na festa de Cássia. Semanas depois do ocorrido. Deolinda só faltou ter um treco. Não era possível, Edvaldo estava pagando de gatão de novo!!! “Nada a ver essa tal de Mônia!” Certamente ele não estava com a garota por seus peitos incríveis, bunda generosa e notável ninfomania, manifestada frente ao público após o terceiro copo de cerveja. Não, ele devia estar com ela, mesmo, para provocar a pobre Deolinda. Eu disse pra ela largar a cartomante e ir tratar diretamente com os espíritos.

Sabe, anos depois encontrei Edvaldo num festival de cinema em João Pessoa. Depois de 2 semanas trabalhando juntos, finalmente tivemos oportunidade de sentar pra tomar uma cerveja. Fiquei surpresa quando ele me disse que Deolinda tinha sido uma grande paixão. Perguntei: “OK, e o que... EXATAMENTE... estava impedindo você de concretizar sua vontade?” Ele me respondeu que ela estava sempre fazendo joguinho...

Finalmente pude compreender que a deficiência de comunicação afeta os casais a partir da etapa da possibilidade remota.

Quem sou eu pra dizer alguma coisa?

Chamem os hippies!

Que pelo menos do Amor eles entendem, assim me disseram...

domingo, 16 de agosto de 2009

Notas para uma classificação dos rituais de aproximação sexual

Etapa 1 – A seleção

Sabe, hoje em dia nunca se sabe o que atrai um macho.
Bundas, peitos, livros de Karl Marx...

Na dúvida arrisquei de tudo:
Bundas, peitos, livros de Karl Marx,
Comentários inteligentes na mesa do bar,
Comentários estúpidos na mesa do bar...


Etapa 2 – A troca de olhares

Então começou assim, como uma troca de olhares estranhos.
Daqueles que acompanham toda uma expressão e carecem de interpretação mediúnica.
Ah, o que seria dos amantes sem a ajuda dos espíritos...!


Etapa 3 – A linguagem certa

Muito a dizer...
Em forma de gemidos e sussurros.


Etapa 4 – Looping

Desde a troca de olhares estivemos subindo uma escada.
Mas depois do sexo a gente volta pro primeiro degrau.
E depois do sexo a gente volta pro primeiro degrau.
Aí depois do sexo a gente volta pro primeiro degrau.
Então depois do sexo a gente volta pro primeiro degrau.


Etapa 5 – Adivinhando sem a ajuda de espíritos

Levantar problemas.
Formular hipóteses.
E concluir...

Sem nenhuma lógica de ordem científica.


Etapa 6 – Pela volta do amor cortês

( ) Estou passando por uma fase difícil
( ) Minha ex-namorada me magoou
( ) Não sei nem o que dizer
( ) Não estou preparado para me apaixonar novamente
( ) Sou solteiro por estilo de vida
( ) Já tenho namorada / Sou casado
( ) Não consigo me apegar às pessoas
( ) Não consigo me desapegar das pessoas
( ) Meu emprego não permite
( ) Acabei de sair de um relacionamento longo
( ) Você é a pessoa certa na hora errada
( ) Desculpa criativa (Qual? ____________________)