Dizem que os problemas de Regina começaram pouco antes dela reencarnar. Deus teria perguntado: “Peitos grandes ou inteligência média, Regina?”, ao que ela teria respondido em puro êxtase: “Inteligência média!!!! Inteligência média!!!”
Então lá estava Regininha caminhando em direção ao banheiro do Mercado da Madalena, seu lugar preferido depois do Cinema da Fundação e do 13º andar do CFCH. Os trajes folgados e fechados, que evitavam o que seria um decote inútil pela falta mesma daquela protuberância tão desejada por ambos os sexos, era agravado pela expressão soturna de sua face, conferindo ao quadro uma seriedade que chegava a contrastar com o ambiente.
Mas engana-se quem, a conhecer pela indumentária, imagina Regina como uma casta beata. Pois nada há de religioso em seu decoro. Este é antes fruto de uma superstição intelectual muito antiga, da época em que ciência, filosofia e misticismo ainda se confundiam como porra e corrimento num lençol de motel. Em resumo, trata-se de uma daquelas mulheres que se arrogam o mérito de ter descoberto o “jeito certo” de falar sobre sexo.
“Erótica” era como chamava sua literatura romântica, melosa e estereotipadamente feminina. Tal termo não passava de uma máscara moral que cumpria a função de distanciá-la da pornografia, um tema ainda proibido e com acesso regulamentado tanto pelas igrejas quanto pela “elite intelectual” do país. “Pecado” para os que crêem, “falácia de autoridade” para os que não crêem.
─ Podre!!! – Cochichou Regina após um comentário repleto de “cus” e “bucetas” da mesa ao lado, deixando clara sua posição quanto ao desprendimento moral alheio.
Para os amigos, uma ousada que, não obstante, sabia “se dar o valor”, seja lá o que isso quiser dizer. Pobre não era, mas adorava se esbaldar nos focos de cerveja barata e banheiros sujos. Para Regina, a faculdade do julgamento era sua qualidade mais importante. E nesse sentido gostava de entender a si mesma como uma pessoa extremamente dura, porém bastante franca. Uma postura oposta a das sonsas, mas igualmente refutável. Pois não sabia ela que sinceridade convertida em veneno não passa de um pretexto para ser desagradável. Prática bastante difundida mesmo entre as classes menos abastadas que não tiveram acesso a um guia de falácias lógicas.
É ainda nessa faculdade de julgar extremamente peculiar que encontramos a diferença fundamental entre o intelectual e o intelectualóide. Pois o intelectualóide não passa de um mal humorado, não é mesmo? Um camaleão, como todos nós. Porém excessivamente preocupado com seu passado, sendo o registro oral de suas opiniões anteriores o fantasma mais assustador. Quando vem à tona, é capaz de desencadear crises de pânico, sobretudo se seguido de contra-argumentação. “Remédio pra essa galera!” “Drogas lícitas pra esse povo!” – Diriam os adeptos do “pão e circo”, a fim de solucionar o problema do excesso de moral no Recife.
Mas nem só de recato e intelectualoidismo se compõe a personalidade de Regina. Pois Regina também ama, Regina também quer ser amada. Na idealização de um homem que a satisfizesse para além de suas expectativas sexuais, Regina criou sua própria fantasia: “O mito do doutorando em Antropologia”. Mais velho que você, de extrema erudição, mas com testosterona suficiente para não soar civilizado. Algo como um verdadeiro lord, porém com a configuração de um homem das cavernas. Alguém que soubesse o plural de palavras difíceis como “gravidez” e cujo referencial de mulher burra estivesse muito além de Carla Peres. Na verdade Regina desejava muito mais num homem, mas temia que a multiplicação de características improváveis num mesmo indivíduo transformasse sua vida num filme de magia com Sandra Bullock, o que constituiria um fracasso duplo, visto que também odiava representantes do que considerava “cinema fraco”.
O banheiro, porém, era seu reduto mais sincero. Onde todo o nojo podia transparecer, sem nenhum risinho de falsidade moral. Sua desenvoltura com aquele espaço frio e sujo foi até a porta da cabine, que fechou com a ponta dos dedos, temendo a mais subjetiva das contaminações. Desabotoou a calça e desceu junto com a calcinha, receosa de que qualquer milímetro das peças encostasse no vaso. Regina viveu cada segundo de sua urina.
A experiência negativa foi agravada pela subliteratura que estampava a porta da cabine. Regina selecionou, entre os poemas, aquele que lhe pareceu mais vulgar e desprovido do que ela entendia por “substância literária”. Tirou uma caneta do bolso, circulou o poema e pôs-se a escrever uma rebuscada crítica de 57 caracteres sem espaço. Enquanto escrevia, Regina não se permitiu reprimir um sentimento de superioridade. Mas algo apertava seu peito e sua garganta. Algo que custou a decifrar. Era o “algo em comum”. O que havia na interseção dela com todas aquelas imundas desprovidas de intelecto que criticava. O que as aproximava era a caneta e a disposição. E vejam só, meus queridos interessados, se não é Regina agora a mesma de tantas!?
No dia seguinte, tava lá uma resposta para o seu posicionamento: “tomá nu cú otaria da buseta arombada”.
Agora sim ela estava integrada...
Então lá estava Regininha caminhando em direção ao banheiro do Mercado da Madalena, seu lugar preferido depois do Cinema da Fundação e do 13º andar do CFCH. Os trajes folgados e fechados, que evitavam o que seria um decote inútil pela falta mesma daquela protuberância tão desejada por ambos os sexos, era agravado pela expressão soturna de sua face, conferindo ao quadro uma seriedade que chegava a contrastar com o ambiente.
Mas engana-se quem, a conhecer pela indumentária, imagina Regina como uma casta beata. Pois nada há de religioso em seu decoro. Este é antes fruto de uma superstição intelectual muito antiga, da época em que ciência, filosofia e misticismo ainda se confundiam como porra e corrimento num lençol de motel. Em resumo, trata-se de uma daquelas mulheres que se arrogam o mérito de ter descoberto o “jeito certo” de falar sobre sexo.
“Erótica” era como chamava sua literatura romântica, melosa e estereotipadamente feminina. Tal termo não passava de uma máscara moral que cumpria a função de distanciá-la da pornografia, um tema ainda proibido e com acesso regulamentado tanto pelas igrejas quanto pela “elite intelectual” do país. “Pecado” para os que crêem, “falácia de autoridade” para os que não crêem.
─ Podre!!! – Cochichou Regina após um comentário repleto de “cus” e “bucetas” da mesa ao lado, deixando clara sua posição quanto ao desprendimento moral alheio.
Para os amigos, uma ousada que, não obstante, sabia “se dar o valor”, seja lá o que isso quiser dizer. Pobre não era, mas adorava se esbaldar nos focos de cerveja barata e banheiros sujos. Para Regina, a faculdade do julgamento era sua qualidade mais importante. E nesse sentido gostava de entender a si mesma como uma pessoa extremamente dura, porém bastante franca. Uma postura oposta a das sonsas, mas igualmente refutável. Pois não sabia ela que sinceridade convertida em veneno não passa de um pretexto para ser desagradável. Prática bastante difundida mesmo entre as classes menos abastadas que não tiveram acesso a um guia de falácias lógicas.
É ainda nessa faculdade de julgar extremamente peculiar que encontramos a diferença fundamental entre o intelectual e o intelectualóide. Pois o intelectualóide não passa de um mal humorado, não é mesmo? Um camaleão, como todos nós. Porém excessivamente preocupado com seu passado, sendo o registro oral de suas opiniões anteriores o fantasma mais assustador. Quando vem à tona, é capaz de desencadear crises de pânico, sobretudo se seguido de contra-argumentação. “Remédio pra essa galera!” “Drogas lícitas pra esse povo!” – Diriam os adeptos do “pão e circo”, a fim de solucionar o problema do excesso de moral no Recife.
Mas nem só de recato e intelectualoidismo se compõe a personalidade de Regina. Pois Regina também ama, Regina também quer ser amada. Na idealização de um homem que a satisfizesse para além de suas expectativas sexuais, Regina criou sua própria fantasia: “O mito do doutorando em Antropologia”. Mais velho que você, de extrema erudição, mas com testosterona suficiente para não soar civilizado. Algo como um verdadeiro lord, porém com a configuração de um homem das cavernas. Alguém que soubesse o plural de palavras difíceis como “gravidez” e cujo referencial de mulher burra estivesse muito além de Carla Peres. Na verdade Regina desejava muito mais num homem, mas temia que a multiplicação de características improváveis num mesmo indivíduo transformasse sua vida num filme de magia com Sandra Bullock, o que constituiria um fracasso duplo, visto que também odiava representantes do que considerava “cinema fraco”.
O banheiro, porém, era seu reduto mais sincero. Onde todo o nojo podia transparecer, sem nenhum risinho de falsidade moral. Sua desenvoltura com aquele espaço frio e sujo foi até a porta da cabine, que fechou com a ponta dos dedos, temendo a mais subjetiva das contaminações. Desabotoou a calça e desceu junto com a calcinha, receosa de que qualquer milímetro das peças encostasse no vaso. Regina viveu cada segundo de sua urina.
A experiência negativa foi agravada pela subliteratura que estampava a porta da cabine. Regina selecionou, entre os poemas, aquele que lhe pareceu mais vulgar e desprovido do que ela entendia por “substância literária”. Tirou uma caneta do bolso, circulou o poema e pôs-se a escrever uma rebuscada crítica de 57 caracteres sem espaço. Enquanto escrevia, Regina não se permitiu reprimir um sentimento de superioridade. Mas algo apertava seu peito e sua garganta. Algo que custou a decifrar. Era o “algo em comum”. O que havia na interseção dela com todas aquelas imundas desprovidas de intelecto que criticava. O que as aproximava era a caneta e a disposição. E vejam só, meus queridos interessados, se não é Regina agora a mesma de tantas!?
No dia seguinte, tava lá uma resposta para o seu posicionamento: “tomá nu cú otaria da buseta arombada”.
Agora sim ela estava integrada...
