domingo, 16 de agosto de 2009

Notas para uma classificação dos rituais de aproximação sexual

Etapa 1 – A seleção

Sabe, hoje em dia nunca se sabe o que atrai um macho.
Bundas, peitos, livros de Karl Marx...

Na dúvida arrisquei de tudo:
Bundas, peitos, livros de Karl Marx,
Comentários inteligentes na mesa do bar,
Comentários estúpidos na mesa do bar...


Etapa 2 – A troca de olhares

Então começou assim, como uma troca de olhares estranhos.
Daqueles que acompanham toda uma expressão e carecem de interpretação mediúnica.
Ah, o que seria dos amantes sem a ajuda dos espíritos...!


Etapa 3 – A linguagem certa

Muito a dizer...
Em forma de gemidos e sussurros.


Etapa 4 – Looping

Desde a troca de olhares estivemos subindo uma escada.
Mas depois do sexo a gente volta pro primeiro degrau.
E depois do sexo a gente volta pro primeiro degrau.
Aí depois do sexo a gente volta pro primeiro degrau.
Então depois do sexo a gente volta pro primeiro degrau.


Etapa 5 – Adivinhando sem a ajuda de espíritos

Levantar problemas.
Formular hipóteses.
E concluir...

Sem nenhuma lógica de ordem científica.


Etapa 6 – Pela volta do amor cortês

( ) Estou passando por uma fase difícil
( ) Minha ex-namorada me magoou
( ) Não sei nem o que dizer
( ) Não estou preparado para me apaixonar novamente
( ) Sou solteiro por estilo de vida
( ) Já tenho namorada / Sou casado
( ) Não consigo me apegar às pessoas
( ) Não consigo me desapegar das pessoas
( ) Meu emprego não permite
( ) Acabei de sair de um relacionamento longo
( ) Você é a pessoa certa na hora errada
( ) Desculpa criativa (Qual? ____________________)

terça-feira, 14 de julho de 2009

Como Ser um Cafuçu

A Associação das Mulheres que Dizem Sim abriu nesse último domingo as inscrições para o mini curso de inverno “Como ser um Cafuçu”.

Público alvo:
• Homens a partir dos 18 anos.
• Sujeitos tímidos.
• Nerds em geral.
• Mal sucedidos no ramo das conquistas.
• Machos: Beta e Gama.

Ementa:
Módulo 1: “Entendendo os rituais de aproximação sexual”
Módulo 2: “Não pense, aja!”
Módulo 3: “O silêncio ideal”
Módulo 4: “Métodos da pegada por trás”

Não percam! Oportunidade única. Vagas limitadas.

Inscrições no local:
Associação das Mulheres que Dizem Sim (AMDS)
Rua do Desespero, número 69.
Bairro: Afogados do Mar Morto.
Recife, PE.
Telefone para contato: 0800 6969 0069

sábado, 30 de maio de 2009

Todos esses cus que já vivi...

Branca tinha um cu arrogante. Ah, que receio aquele cu me dava. Não tô falando de um simples cu de fácil acesso. Era um senhor cu imponente! Daqueles sedentos, exigentes, que te fazem temer pela sua performance.

O cu de Regina era extremamente suspeito. Nunca pensei que um cu fosse me dar tanta dor de cabeça. “Meu cu é de lua”, dizia serenamente Regina numa negativa. Um cu indeciso... Nunca soube o que esperar dele. Com o cu de Regina aprendi a adivinhar sem a ajuda de espíritos.

Já o cu de Rosana seguia um padrão de comportamento, era metódico. Com esse usei o método científico. Funcionava como um reloginho. E sem Activia.

Vera tinha o cu mais dissimulado que já adentrei. Insinuante... Enchia minha cabeça de idéias. Mas bastava eu me encaixar e ele me cuspia pra fora junto com todas as falácias da emancipação feminina. Gozar naquele cu foi um desejo nunca realizado...

Alcione tinha um cu viciado. Somente assim atingia o orgasmo. A princípio imaginei que fosse frígida. Mas logo descobri o truque. Era só enfiar o dedo no cu de Alcione e ela gozava com a intensidade de 10 cachorras no cio.

Ah, que dó me dava o cu de Salete... Um cu virgem, sem parâmetros. Um cu vulgar, ordinário. Um cu que lia Marie Claire. Quanta opinião tinha aquele cu!

Nem o cu inacessível de Isaura era tão banal. Isaura botava o cu num pedestal. Demorei pra entender que tratava-se de um brinde. Isaura transformou seu cu num objeto. Merecê-lo foi o exercício de paciência mais longo da minha adolescência...

Acho que o cu mais corajoso que já conheci foi o de Noêmia. Era de uma coragem teimosa, orgulhosa, quase infantil. Eu dizia “Tá doendo, Noêmia?” E ela me respondia vertendo lágrimas: “Não, pode continuar”.

Ah, o cu indiferente de Olívia... Eu podia meter enquanto ela lesse A miséria do historicismo e ainda assim ela não perderia o raciocínio de uma linha sequer.

O cu doce e manhoso de Amelinha foi meu tema mais recorrente de masturbação durante anos. “Aiiiiii... assim nãããão...!” Começava ela dengosa. “O que foi, Amelinha?” “Tem que lamber aaaaantes...” Ô Amelinha... Se soubesse quanta saudade me deixou aquele cu...!

Mas de todos esses cus que já vivi, real ou platonicamente... Nenhum me dá tanto tesão quanto o teu, Letícia! Por teu cu, Letícia, venderia minha alma ao demônio da mais baixa classe na hierarquia infernal...

― Nem adianta apelar pra literatura, já disse que não vou dar e pronto, vôti!

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Fossa e Drama: Linhas Piegas de uma Dor

“Compreendes?” - Perguntou-me o meu amigo
“Sim.” - Respondi-lhe, quase que involuntariamente.
“Pois então procure reagir, porque já dizia o Velho Deus de Pirandello que, na Terra, mais que para viver bem, duramos para preparar-nos para morrer sem medo”.
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Esta, foi, provavelmente, a última vez que abri a porta de minha casa. Os que pudessem ter tido uma visão panorâmica da cena deste diálogo teriam uma noção preliminar das nuvens negras e pesadas que pairavam sobre minha alma torturada, cuja solidão não era amenizada nem mesmo pelos afagos do companheiro felino maltrapilho que rosnava em cima do meu velho livro de partituras. À minha volta, meros atavios, desinteressantes, desinteressados...

Tudo em mim fora obliterado. Desde sua morte, eu me arrastava na cronologia dos tempos enfadonhos que tinha de viver, sem sentido, sem paixão, cadavérico e blasfemo. Os fios de barba que cresciam em minha face eram tudo que despontava naquele conjunto de pele e ossos em que me transformei depois que ela partiu.

Ao carteiro, ao padeiro que batia em minha porta para me cobrar, ao vendedor de queijos que outrora me tinha como cliente fiel, a nenhum desses eu respondia naqueles dias. De todos os solícitos recusei a presteza. Replicava com um silêncio que inquietava a vizinhança curiosa em saber se estava vivo ou morto. Eu, por minha vez, ignorava os semblantes ofegantes que apareciam à espreita em minha janela. Eu olhava estático para os rostos colados nos vidros, que deixavam como rastro o vapor da respiração, e cujos lábios saíam comentando: “Ele não morreu, não morreu! Mas é como se estivesse morto. Não há de durar muito!”.

Tentei, como os demais, atribuir todas as dores à espontaneidade do ciclo da vida, aceitando-nas com resignação. Pura ilusão! Eu bem sabia que a vida é caprichosa, debocha de nós, nos faz acreditar que mais adiante ela nos dará alguma coisa em troca do que nos tomou, e que assim será até o dia em que ela cessar em nós.

Hoje agonizo, torcendo pelo fim de minhas funções vitais, me agarrando à tua fotografia, amassando-na para suportar cada dor espetada nas minhas entranhas, enquanto olho para o teto mofado que respinga em minha testa um líquido cujo ranço se assemelha a tudo que de mim restou. Aos poucos vou mofando e morrendo, por livre-arbítrio: de dor sem a morfina paliativa, de frio por rejeitar o calor da multidão, de fome por recusar os prazeres palatinos. Por minha opção, um filhote ao relento. E a morte, que tanto odiei, é, por fim, o que eu mais desejo. Meu último ato: arrastar-me até o rádio para aumentar o volume da canção de amor que está tocando.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Para um amor bandido...



No auge do meu tédio surrupio,
Por vezes contra minha volição,
Um laivo do teu sangue venenoso
Que se faz em meu corpo combustão.